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O rádio — Marconi transmite sem fio

Em setembro de 1895, Guglielmo Marconi transmite um sinal telegráfico sem fio ao longo de 2,4 km na propriedade da família em Villa Griffone, perto de Bolonha. Em 12 de dezembro de 1901, ele recebe em Signal Hill (Terra Nova) a letra "S" (três pontos Morse) emitida de Poldhu (Cornualha), atravessando 3 500 km de Atlântico. Prêmio Nobel de Física de 1909. O rádio sustenta hoje um ecossistema de 1,8 trilhão de dólares (telecomunicações sem fio, 2024).

Source: communitystories.ca

O rádio — Marconi transmite sem fio

Em termos simples

Uma faísca estala entre dois eletrodos, um circuito elétrico começa a vibrar e essa vibração parte pelo ar: é todo o princípio do rádio de Marconi. Em 1895, na propriedade da família em Villa Griffone, o sinal percorria apenas 2,4 km. Seis anos depois, em 12 de dezembro de 1901, Marconi anunciou ter ouvido na Terra Nova três pontos Morse — a letra "S" — emitidos a 3 500 km dali, na Cornualha, numa época em que os físicos, com Lord Kelvin à frente, julgavam impossível ultrapassar ~300 km por causa da curvatura da Terra. O que o salvou era algo que ele desconhecia: uma camada eletrizada da alta atmosfera devolve ao solo as ondas desse tipo, e o sinal ricocheteou entre ela e a superfície do oceano. Ressalva honesta: nenhum vestígio material dessa escuta foi conservado, e a recepção de 12 de dezembro de 1901 continua debatida pelos historiadores.

Descoberta

ParâmetroValor
Data dos primeiros ensaiosSetembro de 1895 (Villa Griffone, Bolonha, Itália)
Inventor principalGuglielmo Marconi (1874–1937)
Patente britânicaN.º 12039, depositada em 2 de junho de 1896
Transmissão transatlântica12 de dezembro de 1901 (Poldhu → Signal Hill, 3 500 km)
Sinal transmitidoLetra "S" em código Morse (frequência ~850 kHz)
Transmissor de PoldhuCentelhador, antena provisória de 2 mastros (~48 m) com um leque de 54 fios, potência ~10–15 kW
Receptor de Signal HillCoesor de mercúrio "Italian Navy" (autorregenerativo, sem tapper), escuta em fone telefônico + antena de pipa a 150 m
Prêmio NobelFísica 1909 (compartilhado com Karl Ferdinand Braun)

Explicação técnica

1. Geração de ondas — O transmissor de Marconi usa um circuito oscilante de centelhador (spark gap): uma descarga de alta tensão (15–20 kV) entre dois eletrodos ioniza o ar e gera oscilações elétricas amortecidas num circuito LC (indutância + capacitância). A frequência de oscilação é determinada por f=12πLCf = \frac{1}{2\pi\sqrt{LC}}f=2πLC​1​. Essas oscilações são acopladas a uma antena que irradia ondas eletromagnéticas.

2. Propagação transatlântica — Os céticos (entre eles Lord Kelvin) afirmavam que as ondas de rádio, propagando-se em linha reta, não conseguiriam vencer a curvatura terrestre além de ~300 km. Marconi contornou esse obstáculo sem compreendê-lo: a camada ionosférica (identificada por Kennelly e Heaviside em 1902) reflete as ondas de frequência inferior a ~30 MHz. O sinal de Poldhu (~850 kHz, faixa MF) ricocheteava entre a ionosfera — principalmente a camada E (~90–150 km de altitude), que sustenta a propagação MF noturna — e a superfície do oceano, atravessando o Atlântico por propagação ionosférica de múltiplos saltos.

3. Recepção — Em Signal Hill, Marconi não empregava o coesor de limalha de Branly (tubo de vidro contendo limalha de prata-níquel cuja resistência cai de ~100 kΩ para ~1 kΩ na presença de ondas de rádio, rearmado após cada impulso por um martelo mecânico — o tapper), mas um coesor de mercúrio chamado "Italian Navy": um detector autorregenerativo, escutado diretamente num fone telefônico, sem tapper nem registro em fita de papel. A ausência de qualquer vestígio material do sinal explica que a recepção de 12 de dezembro de 1901 permaneça historicamente debatida.

4. Modulação e largura de banda — O sistema de Marconi usava a modulação tudo-ou-nada (OOK, On-Off Keying): o sinal estava presente (traço ou ponto Morse) ou ausente. O transmissor de centelhador produzia um espectro de banda larga (spark gap = ruído em toda a faixa MF), limitando o número de transmissões simultâneas. Esse problema seria resolvido pelo oscilador de válvula a vácuo de Lee De Forest (Audion, 1906), que permitiu a modulação contínua.

Por que funcionou

Marconi não era um teórico — não compreendeu de fato a propagação ionosférica. Sua força estava na engenharia empírica: testava sistematicamente o efeito da altura da antena, do aterramento e da potência sobre o alcance de transmissão. Descobriu empiricamente que o alcance aumenta com o quadrado da altura da antena (relação aproximada para a difração acima do horizonte), o que o levou a construir antenas cada vez mais altas.

EtapaAlcance
Ensaios de Villa Griffone (setembro de 1895)2,4 km
Limite julgado intransponível pelos céticos (curvatura terrestre)~300 km
Enlace Poldhu → Signal Hill (12 de dezembro de 1901)3 500 km
Antena de PoldhuAntes de 17 de setembro de 1901Tentativa de 12 de dezembro de 1901
ConfiguraçãoCírculo de 20 mastrosAntena provisória de 2 mastros, leque de 54 fios
Altura61 m~48 m
DestinoDerrubada por uma tempestade em 17 de setembro de 1901Montagem substituta

Os trabalhos teóricos de Maxwell (1865) e a demonstração experimental de Hertz (1887) haviam provado a existência das ondas eletromagnéticas, mas ninguém percebera sua utilidade prática para a comunicação. O próprio Hertz, quando questionado, declarou: "Não penso que as oscilações que descobri venham a ter qualquer aplicação prática."

Os limites do dispositivo eram reconhecidos desde a origem. O transmissor de centelhador irradia por toda a largura da faixa MF, o que impõe um teto ao número de enlaces simultâneos até a chegada da modulação contínua (Audion, 1906). E a regra empírica seguida por Marconi — o alcance cresce com o quadrado da altura da antena — só vale como aproximação da difração além do horizonte: não descreve o trajeto ionosférico que de fato conduziu o sinal, mecanismo cuja camada refletora só seria identificada em 1902. Resta a distância entre o anúncio e o que é materialmente demonstrável: a escuta de 12 de dezembro de 1901 não deixou fita de papel nem registro, pois o coesor de mercúrio era escutado diretamente num fone telefônico; é essa ausência de vestígio, e não uma contestação do princípio, que mantém o episódio em disputa.

Cadeia causal

Maxwell formaliza as equações do eletromagnetismo (1865) → Hertz prova a existência das ondas de rádio (1887) → Branly inventa o coesor (1890) → Marconi transmite sem fio (1895) → transmissão transatlântica (1901) → Audion de De Forest (1906) → radiodifusão comercial (KDKA, 1920) → FM de Armstrong (1933) → radar (1935) → televisão (1936) → satélites de comunicação (Telstar, 1962) → telefonia móvel (1G, 1983) → WiFi 802.11 (1997) → 5G NR (2019)

Curiosidade

Na noite de 14 de abril de 1912, o Titanic afunda depois de bater num iceberg. Os operadores de rádio Jack Phillips e Harold Bride transmitem o sinal de socorro CQD e depois SOS em 500 kHz durante 1 h 40 min. O Carpathia, a 93 km, capta o chamado e salva 710 passageiros. O Californian, a apenas 16 km, não ouve: seu único operador de rádio desligou o aparelho e dorme. Essa tragédia leva ao Radio Act de 1912 e à obrigação de uma escuta de rádio permanente no mar — o rádio passa da condição de curiosidade técnica à de obrigação legal de segurança.

Legado e dados atuais

A cadeia aberta em Villa Griffone nunca foi interrompida: do WiFi 802.11 (1997) à 5G NR (2019), os enlaces de hoje continuam apoiados num oscilador acoplado a uma antena. As telecomunicações sem fio formam atualmente um ecossistema de 1,8 trilhão de dólares (2024). O que resta estabelecer está na outra ponta da história: à falta de registro material, a recepção transatlântica de 12 de dezembro de 1901 não é autenticável a posteriori — o debate incide sobre esse enlace específico, não sobre os ensaios de 1895 nem sobre a patente britânica de 1896.

Fontes

Referências verificadas durante a auditoria factual de agosto de 2026: são as páginas
contra as quais as afirmações deste boletim foram confrontadas.

  1. Le premier système d'antenne de Poldhu, décembre 1901 — Community Stories
  2. Milestone: Transmission of Transatlantic Radio Signals, 1901 — IEEE, Engineering and Technology History Wiki
  3. The 'Italian Navy Coherer' Scandal Revisited — IEEE