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A oferta e a demanda

A oferta e a demanda não são quantidades, mas duas relações entre preço e quantidade; sua intersecção define o preço de equilíbrio.

A oferta e a demanda

A oferta e a demanda

Definição

A demanda é a relação que associa, a cada preço possível, a quantidade que os compradores desejam adquirir. A oferta é a relação que associa, a cada preço, a quantidade que os vendedores desejam ceder.

São relações, não números. Daí vem a confusão mais frequente do campo:

Quantidade demandadaDemanda
NaturezaUm número, para um preço dadoUma relação inteira preço → quantidade
RepresentaçãoUm ponto da curvaA curva inteira
Se o preço do bem mudaDeslocamento ao longo da curvaNada: a curva não se move
Se outro determinante mudaMuda, porque a curva se deslocouDeslocamento da curva inteira

Dizer «a demanda aumenta porque o preço baixa» é, portanto, incorreto: é a quantidade demandada que aumenta, deslocando-se ao longo de uma demanda inalterada.

A lei da demanda

Mantidas constantes as demais condições, a quantidade demandada de um bem decresce quando seu preço aumenta.

Essa regularidade é maciçamente verificada, mas não é um teorema: a teoria do consumidor só garante sem exceção o efeito de substituição. Dois mecanismos distintos estão em ação:

  • o efeito de substituição: o bem que se tornou relativamente mais caro é preterido em favor de outros que prestam serviço semelhante. Nunca é de sentido contrário — a teoria garante que ele não pode agir para cima; no máximo é nulo;
  • o efeito de renda: com a renda monetária inalterada, uma alta de preço corta o poder de compra. Para um bem normal — do qual se compra mais quando se enriquece — a quantidade adquirida diminui. Para um bem inferior, ela aumenta: o efeito de renda age então contra o efeito de substituição.

A cláusula «mantidas constantes as demais condições» não é ornamento: ela isola o efeito do preço do dos demais determinantes — rendas, preços dos outros bens, preferências, número de compradores. Um preço e uma quantidade que sobem juntos não são, portanto, um contraexemplo à lei: a cláusula foi rompida, uma curva se deslocou.

A oferta

Para um vendedor que sofre o preço do mercado sem poder inflectí-lo, a quantidade ofertada cresce com o preço: um preço mais alto torna rentáveis unidades cujo custo de produção era antes proibitivo.

Esse custo é ele mesmo um custo de oportunidade: dedicar recursos a produzir uma unidade é renunciar ao seu melhor outro emprego. Um vendedor produz enquanto o preço cobrir esse valor abandonado.

Essa inclinação positiva repousa sobre um fundamento mais sólido que o da lei da demanda: decorre da maximização do lucro, sem efeito de renda que venha contrariá-la. Seu limite está alhures — o horizonte. A muito curto prazo, uma quantidade já produzida não pode mais ser ajustada: acima do preço pelo qual os vendedores aceitam ceder, a curva torna-se vertical.

A chegada de novos vendedores, ao contrário, não descreve essa inclinação: ela desloca a curva de oferta inteira.

Os casos invocados contra a lei da demanda

Um bem de Giffen é um bem cuja quantidade demandada cresce com seu preço. Isso supõe um bem inferior que absorve parte importante do orçamento e não tem substituto próximo: sua alta de preço corta o poder de compra; sendo o bem inferior, esse empobrecimento leva a comprar mais dele, e esse efeito de renda supera o efeito de substituição. Essas três condições são necessárias, não suficientes: um bem pode preenchê-las todas sem que o efeito de renda prevaleça, e ver então sua quantidade demandada cair quando seu preço sobe.

A teoria do consumidor não o exclui: a possibilidade é um fato de teoria. Sua evidenciação empírica, em contrapartida, é rara e discutida — os casos propostos são objeto de debates metodológicos, e nenhum vale como demonstração incontestada. A existência observada permanece uma questão aberta.

Um bem de Veblen é procurado porque seu preço elevado sinaliza um status. O efeito é observado em estudos de comportamento do consumidor, sem ser universal. Sobretudo, ele não invalida a lei: o preço aí modifica a natureza percebida do bem, o que rompe a cláusula «mantidas constantes as demais condições» em vez de contradizer a relação em si.

O equilíbrio

Num mercado em que nem os compradores nem os vendedores fixam o preço, o preço de equilíbrio é aquele em que a quantidade ofertada iguala a quantidade demandada. A esse preço, e somente a ele, nenhum comprador ou vendedor disposto a negociar sai decepcionado.

P Q P* Q*
SituaçãoPosição do preçoO que se observa
Quantidade ofertada > quantidade demandadaAcima do equilíbrioVendedores dispostos a ceder não encontram comprador
Quantidade demandada > quantidade ofertadaAbaixo do equilíbrioCompradores dispostos a pagar não são atendidos
As duas são iguaisNo equilíbrioNem um nem outro

É o que explica que um preço mantido autoritariamente abaixo do equilíbrio venha acompanhado de escassez: ao preço imposto, a quantidade demandada excede a quantidade ofertada, e o preço, bloqueado, não pode assumir o valor no qual as duas quantidades coincidiriam.

A convergência para o equilíbrio

Que o equilíbrio exista está demonstrado sob hipóteses de continuidade e de comportamento nos extremos — é preciso, em particular, que a diferença entre as duas quantidades mude de sinal. Isso é um fato de teoria. Que ele seja atingido é de natureza inteiramente outra.

Essa segunda afirmação supõe um processo de ajuste — os vendedores baixam seu preço diante dos invendidos, elevam-no diante da escassez — cuja convergência não é garantida em geral. Atrasos de reação podem sustentar oscilações em torno do equilíbrio em vez de amortecê-las. O equilíbrio é um ponto de referência sólido para a análise; o movimento que a ele conduz é um modelo, e tomá-lo por certo excede o que a teoria estabelece.

Resumo

Um preço de equilíbrio não é uma propriedade da coisa: é o único valor no qual o que os compradores querem adquirir e o que os vendedores querem ceder coincidem.