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A inferência

Inferir é passar de premissas a uma conclusão segundo uma regra; a regra se julga pela forma, não pelo conteúdo.

A inferência

A inferência

Definição

Inferir é passar de proposições admitidas — as premissas — a uma nova proposição — a conclusão — seguindo uma regra.

A regra não olha para aquilo de que se fala. Olha apenas para a forma do encadeamento.

Válido não é verdadeiro

São dois juízos distintos, incidindo sobre dois objetos distintos.

Incide sobrePergunta feita
ValidadeA forma do argumentoA conclusão decorre das premissas?
VerdadeO conteúdo das proposiçõesAs premissas descrevem o mundo?

«Todos os gatos voam; Félix é um gato; logo Félix voa» é válido e sua conclusão falsa. A forma é irrepreensível, a primeira premissa não.

Um argumento ao mesmo tempo válido e de premissas verdadeiras diz-se concludente. Sua conclusão fica então garantida como verdadeira — nisso reside todo o interesse da dedução.

Duas regras, e suas duas falsificações

Seja a implicação «se PPP então QQQ».

FormaPremissasConclusãoEstatuto
Modus ponensP⇒QP \Rightarrow QP⇒Q, e PPPQQQVálida
Modus tollensP⇒QP \Rightarrow QP⇒Q, e ¬Q\neg Q¬Q¬P\neg P¬PVálida
Afirmação do consequenteP⇒QP \Rightarrow QP⇒Q, e QQQPPPInválida
Negação do antecedenteP⇒QP \Rightarrow QP⇒Q, e ¬P\neg P¬P¬Q\neg Q¬QInválida

As duas últimas se parecem com as duas primeiras e nada valem. «Se chove, a rua está molhada; a rua está molhada; logo chove» esquece o aspersor: a implicação não proíbe outras causas.

P → Q P Q ✓ P → Q Q P ✗

Três maneiras de inferir

TipoMovimentoGarantia
DeduçãoDo geral ao particularConserva a verdade
InduçãoDo particular ao geralNenhuma — apoia sem demonstrar
AbduçãoDo efeito à sua melhor causaNenhuma — propõe, não prova

Só a dedução transmite a verdade das premissas à conclusão. As outras duas a estendem para além do que as premissas contêm: produzem hipóteses, não teoremas.

Essa diferença não é um defeito das duas últimas. Nenhum conhecimento novo sairia jamais de uma dedução sozinha, que apenas explicita o que as premissas já traziam.

O que um contraexemplo refuta

Para mostrar que uma forma é inválida, basta uma única interpretação em que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.

É o mesmo gesto que negar um enunciado universal: um caso basta, e incide sobre a forma, nunca sobre um exemplo particular de conteúdo.

Resumo

A validade julga a forma, a verdade julga o conteúdo; são precisas as duas para concluir.